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Bernardinho vê o Brasil no 'bolo' na briga por medalha na Olimpíada do Rio




 Bernardinho continua dando duro nos treinos. Soltando alguns gemidos, mais ou menos no estilo Gustavo Kuerten, o ex-levantador, aos 56 anos, ainda coloca a mão na massa, atacando bolas para as jogadoras do Rexona defenderem. Em pleno ano olímpico, o homem que ajudou a colocar a seleção brasileira masculina no patamar mais alto do vôlei internacional por vários anos não descuida dos objetivos do Rexona, que persegue seu 11º título na Superliga, mas se empenha também em outra frente, na formação de jogadoras.
 

Ciente de que a empreitada na Olimpíada do Rio de Janeiro será das mais árduas, o que se constatou com a quinta colocação na Liga Mundial, em casa, o treinador considera que o Brasil tem condições de aspirar a uma medalha, talvez até a dourada. E depois? Sem descartar totalmente uma incursão pelo mundo da política, o treinador diz que está mais propenso mesmo a continuar no mundo do vôlei. Confira a entrevista

Qual a expectativa do Rexona nesta temporada?

A nossa expectativa para o início da temporada é grande, pois somos um time ainda em construção. Os times de São Paulo, por exemplo, já têm um entrosamento maior por terem feito muitos jogos no Paulista. É um ano pré-olímpico e de um sonho coletivo. Sabemos que será uma temporada especial e nós temos uma missão, uma tentativa, de não apenas ganhar o campeonato que estamos disputando. Obviamente este é um objetivo primário. Mas há uma missão na tentativa de desenvolver jogadoras. Nós temos um sonho coletivo, que é ser campeão pela 11ª vez e sonhos e metas individuais, de progressos, para que as jogadoras possam ou conquistar espaço na Seleção ou se tornarem titulares ou estarem na Olimpíada. Certamente é uma ambição pessoal que a gente tenta de alguma forma dar ferramenta para esta evolução. Jogadoras como a Gabriela, Natália, Monique, Juciely, Carol... Colocá-las em boa condição para que elas possam estar na Seleção e consequentemente na Olimpíada, em boas condições de atuar. Conversamos sobre isso, sobre quais são os objetivos, onde elas podem evoluir, ter foco... Não somente no foco individual aqui, "passar na prova", mas também no sentido de elas serem melhores. É como trabalhamos sempre. Agora, talvez, isso seja mais aguçado, para que elas possam realmente conquistar uma vaga, em um momento tão importante, que é a Olimpíada.

Qual foi o sinal emitido pela Liga Mundial (em que o Brasil, disputando a Fase Final no Rio, não conseguiu ir à semifinal, terminando na quinta colocação)?

A Liga Mundial não foi o que a gente esperava. Fizemos uma boa fase de classificação. Fizemos dois jogos duros (na Fase Final) e perdemos para um time que foi campeão da Liga e europeu (França). Não perdemos para um time qualquer, mas para um grande time, que deverá brigar por medalha na Olimpíada, porque vai se classificar em janeiro, provavelmente (no torneio qualificatório olímpico europeu, em Berlim). Isso demonstra aquilo que estamos vendo hoje, o que a Liga mostrou: muito equilíbrio. A Rússia, por exemplo, por enquanto está fora da Olimpíada, ficou fora das finais do Europeu. É uma equipe em que se acreditava muito. A Polônia, que foi campeã mundial, não se classificou ainda para a Olimpíada. É um perde-ganha muito grande no masculino. A França, que teve os melhores resultados em 2015, não foi à Copa do Mundo, que os Estados Unidos acabaram vencendo. Nesse cenário de equilíbrio, é preciso ter consistência. Não temos um grande volume de jogadores chegando em condições de disputar a Olimpíada. Temos alguns jovens valores interessantes, mas sem ainda o traquejo e a experiência necessárias para uma competição como essa. Estamos ainda tentando recuperar jogadores. O Lipe está com problemas físicos, o Murilo está voltando e me parece um pouco melhor na Superliga, mas ainda apresentando altos e baixos. São jogadores de que a gente precisa, a gente quer contar com eles numa competição em que a experiência também é importante, mas não podemos desconsiderar a questão física. Estamos monitorando diariamente não só a condição física, mas as atuações dos jogadores na Superliga, resultados e atuações dos jogadores lá fora. A preocupação é algo permanente. E não somos mais os grandes favoritos. Temos condições para estar num bolo de equipes que podem brigar por medalhas. Esta é a leitura do cenário hoje. Temos oito equipes, entre as quais estamos nós, os Estados Unidos, França, Rússia, Sérvia, Polônia, Itália - que deu um grande passo em relação a crescimento e volta para brigar por títulos com a naturalização do (cubano) Juantorena - e Alemanha, terceira colocada no Mundial e que vai jogar o qualificatório em casa. Essas equipes têm possibilidades de passar no mata-mata das quartas de final. E nem citei a Argentina, que está crescendo, fazendo excelentes Copas do Mundo. Nas categorias de base, a Argentina vem sistematicamente vencendo o Brasil. Foi vice-campeã mundial sub-21, vice-campeã mundial infanto sub-19. O Irã, que foi a grande surpresa em 2014, já em 2015 não foi tão bem, trocou de treinador às vésperas da Olimpíada. Então estamos repensando o movimento como um todo, para que o Brasil possa se alimentar mais de jovens jogadores para que possa continuar sempre bem na briga. Não vai ser dominante. Já foi, durante muito tempo, não é mais.

Você detectou, há um tempo, um sério problema de renovação no vôlei brasileiro. Mas agora acabou de citar que há alguns jovens valores chegando.

Sim, temos alguns jovens chegando. Mas precisamos de espaço para eles na Superliga. Sem isso, o amadurecimento deles se torna mais lento e difícil. Eles têm condições de chegar à Seleção, mas muitos são reservas em seus times na Superliga, jogam pouco. Não dá para achar que eles, que jogaram juvenil, vão ser alçados e resolver numa competição internacional tão importante. Mas isso não significa que estejam descartados, de forma alguma. É que às vezes é opção do próprio jogador ou de seu agente ir para um time grande, para ganhar mais dinheiro. Mas na transição do juvenil para o adulto é importante irem mais a campo, terem mais vivência. Isso vai dar a eles uma condição melhor.

Pode citar alguns nomes?

Temos o Douglas, que tem ganhado mais espaço no Sesi, o Rodriguinho, do Cruzeiro, que está trabalhando bem. Temos alguns outros. Temos o Renan (Buiatti) na Itália, mas recebemos a notícia agora de que o (Giovanni) Sabbi, um dos melhores opostos da Itália, talvez vá para a equipe dele (Volley Milano), e nesse caso ele seria remanejado para a Coreia. Ele poderia ser bem testado na Itália e amadureceria mais lá. Na Coréia não seria tão testado como se estiver num campeonato que tem um peso bem maior. Ainda não está certo, mas o procurador dele está preocupado com isso. É um jogador que está aí brigando por espaço na Seleção.

Diante de tudo o que você disse, o Brasil pode tanto brigar pela medalha de ouro como cair nas quartas.

O Brasil pode, os Estados Unidos podem, a França pode. Porque o Brasil pode pegar nas quartas a Polônia, a Sérvia, os Estados Unidos, a Itália. Isso se todos esses forem à Olimpíada. Porque tem muita gente ainda não classificada. Hoje temos Rússia, Polônia, Sérvia, Bulgária, Alemanha e França. Desses seis times, que têm excelentes condições, apenas três irão à Olimpíada. É tão complicado o caminho no masculino hoje que é difícil fazer um prognóstico. Em chegando bem, estando bem fisicamente, temos condições de chegar a uma semifinal, chegar a uma final. Condições temos para isso, mas temos muitas equipes também em condições de fazer isso.

No ano passado houve aquela crise violenta na CBV. As coisas estão se equacionando?

A minha visão dessa história é que se quer mais transparência hoje. Foi exigida mais transparência, e o Banco do Brasil (patrocinador da CBV) de certa forma se colocou como lesado, exigindo isso. Pessoas foram afastadas, saíram da instituição. O processo me parece mais claro, os controles são muito maiores. O que temos visto são atletas participando de comissões, como o André Heller, que hoje é dirigente de Campinas, o Emanuel. Foram protagonistas na quadra - o Emanuel ainda joga, está na transição - e é importante termos representantes lá dentro que possam ver como as coisas estão se dando, que possam acompanhar os processos. Isso porque fomos pegos de surpresa com tudo o que aconteceu, graças a uma investigação série e documentada do (jornalista) Lúcio de Castro. Fiquei chocado e triste, particularmente, com tudo o que aconteceu. Veja que a gente, está sempre dando duro aqui, se esforçando, dando o nosso melhor, e se depara com uma série de questões que não estão de acordo do ponto de vista legal ou que podem ser legais mas estão à beira da imoralidade. Mas estamos no Brasil, né? Isso é um pouco o retrato do nosso país. Coisas assim acontecem em todos os setores e acabaram infelizmente acontecendo no nosso. Isso nos entristeceu. Mas houve um movimento, uma mudança e o que queremos agora é transparência. Quem tiver que ser investigado, que seja, quem tiver que ser julgado que seja. Não seremos nós que faremos isso, mas os órgãos competentes, a área judiciária.

Na época até se imaginou que você pudesse ter sido a fonte do Lúcio de Castro...

Óbvio que não. Conheço o Lúcio há muitos anos. Mas não o encontro há muito tempo. Eu o encontrei um dia num estacionamento, cruzando num evento, eu saindo e ele chegando. Nos últimos três anos é o único encontro que tivemos. Não trocamos nenhuma mensagem. É um repórter tão sério que sequer me procurou para me entrevistar para que não possam dizer que eu passei ou ele me passou alguma coisa. As coisas que ele revelou me eram absolutamente desconhecidas. O problema do Brasil é que as pessoas não assumem a responsabilidade. É sempre culpa de alguém e ninguém assume as próprias. Eu assumo as minhas. Se eu soubesse de alguma coisa errada eu iria tornar público. 'Estou repassando esse documento aqui, e tal'...Não teria motivo para esconder coisa alguma.

Numa entrevista à "Veja" você disse que soube de alguma coisa...

Quando eu soube de um episódio que me foi relatado por um diretor da CBV eu estava em Saquarema trabalhando (no CT do vôlei), vi que era inadmissível. Saí de Saquarema e fui à sede da Confederação para dizer que se aquilo não fosse consertado estaria me demitindo e diria o porquê. Me disseram que aquilo já tinha sido consertado. E nisso o problema de ajustes e limpeza começou.

Pode dizer o que é?

Para dizer eu teria que estar documentado e não posso dizer sem ter o papel. Soube por fontes. Quando soube por uma fonte extremamente séria, um diretor da CBV, que disse aquilo muito preocupado com a estrutura da instituição, ele veio a mim e eu disse que era inadmissível. E aí coincidiu com a eclosão da investigação do Lúcio. Esse episódio eu jamais comentei a ele, nem a ninguém, o teor do episódio em si. Foi suficiente para eu tomar uma atitude e ao menos dizer na Confederação que poderiam me mandar embora, que era um direito deles, mas que comigo aquilo não iria acontecer.

E a questão foi resolvida?

Acredito que sim. Ao menos as pessoas saíram e outras chegaram para dar um novo rumo à gestão da instituição.

E depois da Olimpíada? Quais são seus planos?

Não sei. Tenho convites, tenho propostas para seguir, mas não tenho nem ideia. Meu foco agora é Superliga e Olimpíada. Até o fim de agosto de 2016 minha cabeça estará toda na quadra. Depois com calma vou avaliar.

Há a possibilidade de enveredar pela política?

Não, a princípio não. Tenho convites, mas a princípio prefiro fazer o que sei fazer, continuar no meu ambiente e fazer as coisas certas. O meu projeto é o voleibol e fazer e lutar pelas coisas que considero corretas. Mas vamos ver com calma quais serão as perspetivas em 2016.

Reportagem de Alessandro Lucchetti, do iG

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