Treinamento pliométrico para jogadores de voleibol






    Várias são as ciências dos desportos que tem contribuído para a evolução da estrutura do jogo, proporcionando um melhor entendimento e condução de processos de treino com vista à otimização do rendimento esportivo, o voleibol tem sofrido ao longo dos tempos alterações nas regras do jogo, o que contribuiu para um jogo mais rápido, exigente e espetacular. Como consequência, o voleibol se tornou uma modalidade desportiva do ponto de vista físico que exige jogadores cada vez mais altos e fortes (SARAIVA, 2009).

    Em seu estudo sobre a resistência no voleibol (HESPANHOL, 1997) define os movimentos desta modalidade como complexos, executados de forma rápida, intensa e de modo brevíssimo com intervalo nas ações de ataque e defesa. (STANGANELI, 1998) diz que o voleibol é caracterizado por esforços de curta duração e de intervalos com repouso ativo. As ações são de esforço máximo ou sub-máximo, a maior parte dos movimentos requerem força explosiva.

    A duração dos rallys no voleibol é levemente maior na categoria feminina do que na masculina, estando compreendida entre 6'' a 10'' e 4'' a 8'', respectivamente (OLIVEIRA, 1998). Suas maiores intensidades são os saltos e os deslocamentos defensivos. Dessa forma, o tipo de via energética é de predominância anaeróbica alática e aeróbica, devido a relação de esforço e pausa durante o período durante o período de realização das partidas de voleibol (STANGANELI, 1998). Segundo (MARQUES, 2004) o voleibol é um desporto acíclico, com intensa ação intercalado com situações de recuperação ativa ou não.

Contribuição metabólica muscular e tipos de força

    Pode-se observar que o voleibol é composto de movimentos combinados, com máxima intensidade seguidos de intervalos de repouso. (RODRIGUES, 2001) ao mensurar o gasto energético do voleibol, pode constar que o gasto médio é de 650 Kcal por hora em uma sessão de treino à 55% do VO2 de pico, a frequência cardíaca média foi de 133 batimentos por minuto.

    (FIGUEIRA JÚNIOR et al.,1996) afirmam que o sistema energético do voleibol é 50% aeróbio e anaeróbio. (STANGANELI,1998) informa que o metabolismo aeróbio é responsável por 50% de energia, o creatinofosfático por 40% e 10% do glicolítico quando jogamos voleibol. Mas (OLIVEIRA,1997) escreve que o sistema energético aláctico é o predominante no voleibol e o glicolítico é em menor grau.

    Embora haja divergência entre os autores sobre a principal via energética utilizada no voleibol, pode-se observar que o sistema anaeróbico é predominante, variando entre o creatinofosfático e o glicolítico, embora o aeróbico também esteja presente, devido aos intervalos entre os rallys.

    (SARAIVA, 2009) escreve que a capacidade de salto e deslocamentos defensivos, principais gestos mecânicos do voleibol, dependem principalmente da força explosiva. Ela afirma que é necessário dotar o voleibolista de níveis de força rápida (potência), força de resistência e força máxima, tendo em conta que esta última expressão é um elemento de base da força rápida. Para (Gomes e Teixeira, 1998) a interação de força e velocidade no voleibol, descrevem a maior parte dos movimentos, desta forma a força explosiva, definida por eles como a capacidade do sistema nervoso e muscular de suportar a resistência desenvolvida pela contração muscular rápida, deve ser a mais desenvolvida em um programa de condicionamento físico. (MARQUES JUNIOR, 2005) afirma que a potência (força explosiva) possibilita o atleta saltar mais rápido e mais alto.

Treinamento de força

    Atendendo as características dinâmicas e explosivas da grande maioria das ações técnicas do jogador de voleibol, a maioria dos autores alerta para a necessidade de um trabalho de musculação no sentido de desenvolvimento da potência muscular. O voleibolista necessita possuir potência muscular para mobilizar o força em um curto período de tempo, particularmente necessária durante a execução dos saltos (SARAIVA, 2009).

    A potência torna-se imprescindível nos desportos da atualidade por que auxilia no desempenho atlético, como no arremesso, golpe em uma arte marcial e salto vertical. (SARAIVA, 2009). Esse autor apresenta quatro fatores que trabalhados em conjunto beneficiam a força de potência:1. Força Máxima Dinâmica, força executada em velocidade lenta com cargas elevadas; 2. Força de Potência, força realizada com máxima velocidade portando pesos leves ou medianos; 3. Habilidades Específicas, ciclo excêntrico-concêntrico e índice de manifestação da força; 4. Coordenação Intermuscular.

    O treino de força deverá integrar o planejamento anual, buscando alcançar os seguintes objetivos:

  1. Preparar o aparelho músculo-articular para o trabalho de intensidade encontrado no período de competição;

  2. Dotar o voleibolista de níveis de força rápida (potência) e de resistência muscular, que lhe permita executar com eficácia as ações do jogo nas quais a participação desta capacidade (força) seja importante;

  3. Prevenir o aparecimento de lesões, especialmente daquelas cuja ocorrência depende da estabilidade do aparelho músculo-articular;

  4. Recuperar funcionalmente os atletas cuja capacidade de rendimento esteja afetada por lesão;

  5. Promover uma postura corporal correta, ou seja, compensar as cargas unilaterais de treino por forma a manter o equilíbrio músculo-articular. (SARAIVA, 2009)

    Não diferente dos aspectos técnicos e táticos, o treinamento de força também deve ser periodizado, em seu estudo (MARQUES JUNIOR, 2005) distingue três períodos, sendo eles a preparação de força geral, especial e competitiva. A preparação de força geral inicia-se geralmente na fase básica do período preparatório, passando para a preparação de força específica. Ambas as fases objetivam um desenvolvimento harmonioso no corpo do desportista e um desempenho melhorado da força. No período competitivo de preparação busca-se gestos e movimentos iguais aqueles que serão executados em jogo.

    O mesmo autor em outro estudo (2004) escreve que a musculação para o atleta de voleibol tem que ser praticada similar ao gesto esportivo da modalidade para proporcionar uma adequada transferência da força aos fundamentos executados pelo voleibolista. Ele relaciona alguns aspectos importantes para serem seguidos:

  1. Amplitude e direção do movimento: o atleta faz o movimento da técnica desportiva com peso da musculação na mesma amplitude de movimento e igual direção da resistência externa do esforço muscular competitivo;

  2. Área acentuada da amplitude funcional do movimento: a amplitude funcional do movimento do atleta sempre tem uma área acentuada, a qual corresponde o máximo de esforço dinâmico, num determinado ângulo articular;

  3. Volume do máximo esforço funcional: o esforço do músculo no exercício deve ser de preferência superior aos da ação competitiva para maior êxito na sessão;

  4. Velocidade de manifestação do máximo de esforço: o atleta deve fazer o exercício em velocidade igual ao da ação competitiva.

    (SARAIVA, 2009) é conclusivo ao dizer que o treino de força para o atleta de voleibol deve possuir sessões de força máxima, força de potência e força reativa. O treinamento é constituído pela musculação e pelo salto em profundidade.

Mecanismos funcionais pliométricos

    Historicamente o termo pliometria foi introduzido pelo treinador norte americano Fred Wilt em 1975, essa técnica tornou-se popular nos anos 60 e 70 e foi responsabilizada pelo sucesso dos atletas do leste europeu na época. Os treinadores norte americanos já utilizavam saltos com bancos e pular corda, mas não conheciam sua base fisiológica. (BRANDALISE, 2007)

    (MOURA, 1994) define o exercício pliométrico pela existência de uma contração concêntrica imediatamento após uma contração excêntrica.

    Segundo (BARBANTINI, 1998) o treinamento pliométrico é fundamental para a performance no salto vertical e está baseado no Ciclo de Alongamento e Encurtamento (CAE), o qual é um mecanismo fisiológico que tem como função aumentar a eficiência mecânica do movimento.

    (SARAIVA, 2009) afirma que atletas com predomínio de fibras musculares rápidas conseguem um ciclo de alongamento-encurtamento em menor tempo e que sessões de salto em profundidade melhoram o potencial de fibras de contração rápida e aumentam a quantidade das fibras rápidas na musculatura treinada.

    O ciclo de alongamento-encurtamento está baseado no acúmulo de energia potencial elásticas durante as ações musculares excêntricas, a qual é liberada na fase concêntrica subsequente sob forma de energia cinética (BARBANTINI, 1998), ele diz que quando há passagem da fase excêntrica para a concêntrica de forma rápida os músculos podem utilizar a energia elástica armazenada na fase excêntrica para geração de força com um menor custo metabólico.

    (BARBANTINI, 1998) cita duas estruturas proprioceptivas atuantes no ciclo de alongamento-encurtamento. A primeira, os fusos musculares são responsáveis pela detecção do grau de alongamento tendinoso, onde, a partir de determinado limiar, existe uma ação muscular reflexa, concêntrica ou isométrica, como forma de proteção da estrutura a um alongamento excessivo e rápido. A segunda, os órgão tendinosos de Golgi, são responsáveis pela detecção do grau de tensão muscular e suas respostas reflexas causam o relaxamento do músculo ou músculos envolvidos na tarefa.

    O mesmo mecanismo é denominado de ciclo excêntrico-concêntrico por (MOURA, 1994) e pode ser explicado de duas formas: pela reutilização da energia elástica, em série com as estruturas contráteis do músculo há componentes elásticos que são alongados durante a contração excêntrica. Nesse alongamento, armazena-se energia em tais componentes e esse energia pode ser reutilizada durante a contração concêntrica, desde que o intervalo entre as duas contrações não seja grande; e pela potenciação reflexa, um mecanismo de facilitação provocado pela contração excêntrica que alongaria os fusos musculares e em função disso uma mensagem seria enviada às fibras do músculo correspondente para que o mesmo contraísse.

Pliometria: aplicação prática

    A pliometria vem sendo muito difundida no meio esportivo. Para isto são utilizados saltos partindo de uma plataforma elevada para o chão, seguidos por saltos para uma próxima plataforma, com o objetivo de fazer com que a velocidade do centro de gravidade corporal no momento do contato com o solo aumente, pela ação da força da gravidade na quantidade de energia cinética do corpo durante a queda. Isso faz com que a fase excêntrica seja maior e gerada rapidamente para amortecer o impacto e consequentemente produzir uma facilitação neural para que a fase concêntrica também seja gerada da mesma forma, assim como aumentando a eficiência por retorno da energia pela utilização do ciclo de alongamento-encurtamento.(BARBANTINI, 1998)

    A determinação da altura ideal do salto deve ser exatamente aquela que apresentar a maior impulsão vertical após o contato com o solo. (BARBANTINI, 1998)

    (MOURA, 1994) afirma que nem sempre as quedas que possibilitam os maiores saltos são as que provocam a maior produção de potência máxima. O atleta pode, mesmo com uma potência máxima menor, aumentar a duração de seu contato com o solo, aumentando com isso a impulsão total, portanto obtendo saltos maiores. Durante a realização de exercícios competitivos, no entanto, aumentos no tempo de contato não resultam em melhor desempenho, sendo na verdade prejudiciais.

    Quanto a realização dos saltos (BARBANTINI, 1998) devem ser realizados após um aquecimento intenso, pois exige grande coordenação a ativação do sistema neuro-muscular. Os exercícios devem ser feitos em dias que a carga de treino do dia anterior for leve ou se houve repouso passivo, pois se forem realizados após um treinamento de força muito intenso ou de resistência anaeróbica, a sistema neuro-muscular estará com elevado grau de fadiga e a velocidade de execução dos movimentos poderá diminuir, alterando o padrão coordenativo do movimento e diminuindo a eficácia na utilização do CAE. As séries devem ser curtas para que o padrão de ativação das unidades motoras seja mantido, e somente o sistema anaeróbico alático utilizado, fazendo com que cada série seja composta de quatro o oito saltos, seguidas por período de recuperação de 1'30'' até 3' entre elas (a extensão do intervalo está ligada ao tempo de reposição das reservas de ATP/CP.

Conclusões

    Após revisão literária sobre o condicionamento físico no voleibol, principalmente direcionada às formas de força presente na modalidade e o desenvolvimento da força explosiva através do treinamento pliométrico, pode-se observar o quanto os autores dão importância para essas valências no voleibol atual. Porém a maioria dos estudos são realizados com equipes de categoria de base ou amadoras. A realização de pesquisa com atletas de alto-nível, participantes das principais competições nacionais traria maior precisão na prescrição de trabalhos com equipes profissionais, visto que estas geralmente são as que realmente tem condições de realizar uma preparação planejada e estrutura e se serviriam melhor dos resultados.

Referências bibliográficas

  • BARBANTINI, Valdir José; UGRINOWITSCH, Carlos. O ciclo de alongamento e encurtamento e a "performance" no salto vertical. Rev. Paulista de Educação Física, São Paulo, 12(1): 85-94, jan./jun.1998.

  • BRANDALISE, Michelle; Rossi, Luciano Pavan. Pliometria aplicada à reabilitação de atletas. Revista Salus, Guarapuava, Paraná, 2007.

  • FIGUEIRA JÚNIOR, A. J., ANDRADE, D. R., ROCHA, J. R. & MATSUDO, V. K. R. Fadiga muscular em atletas da seleção brasileira de voleibol feminino após 12 semanas de treinamento. Âmbito de Medicina Desportiva. v. 3, n. 26, p. 4, 1996.

  • HESPANHOL, Jefferson Eduardo, ARRUDA, Miguel de. Resistência Especial do Voleibolista. Revista Treinamento Desportivo, v. II, n.03, p. 12-20, 1997.

  • MARQUES JUNIOR, Nelson Kautzner. Treino de força para melhorar o salto vertical do atleta de voleibol. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires – Ano 10 – n. 81 – fevereiro de 2005. http://www.efdeportes.com/efd81/volei.htm

  • MARQUES JUNIOR, Nelson Kautzner. Preparação de força especial para o voleibolista. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires – Ano 10 – n. 70 - Março de 2004. http://www.efdeportes.com/efd70/voleib.htm

  • MOURA, Nélio Alfano. Recomendações básicas para a seleção da altura de queda no treinamento pliométrico. Boletin IAAF, Centro Regional de Desenvolvimento, Santa Fé, Argentina, n. 12, 1994.

  • OLIVEIRA, P. R. Particularidades das ações motoras e características metabólicas dos esforços específicos do voleibol juvenil e infanto-juvenil feminino. Revista das Faculdades Claretianas. s. v., n. 6, p. 47-50, 55 e 56, 1997.

  • OLIVEIRA, P. R. O efeito duradouro de treinamento (EPDT) das cargas concentradas de força. Tese de Doutorado, Unicamp. Campinas, 1998.

  • SARAIVA, Linda M. Balinha. Efeitos múltiplos e multilaterais de um programa de treino de força geral no desenvolvimento das diferentes expressões de força: Um estudo em Voleibolistas juvenis do sexo feminino. Dissertação de Mestrado Ciências do Desporto, Universidade do Porto, 2009.

  • STANGANELLI, L. C. R. et al. Análise da Freqüência Cardíaca de jogo em atletas de voleibol infanto-juvenil: de acordo com funções específicas. Treinamento Desportivo, V3 (2): 44-51, 1998.

  • RODRIGUES, Luiz Oswaldo Carneiro; VIMIEIRO-GOMES Ana Carolina. Avaliação do estado de hidratação dos atletas,estresse térmico do ambiente e custo calórico do exercício durante sessões de treinamento em voleibol de alto nível. Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 15(2): 201-11, jul./dez. 2001.

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