Entrevista: Fernandinha admite que não esperava mais defender a seleção









A lesão crônica na coluna causada por um acidente de carro na adolescência nunca doeu tanto em Fernandinha quanto nos últimos dois anos. Sondada pelo técnico José Roberto Guimarães mais de uma vez para integrar a seleção brasileira feminina de vôlei, a levantadora se viu obrigada a dizer não em todas elas devido às fortes dores que a perseguem desde os 12 anos de idade. A frustração foi tão profunda, que defender seu país já não fazia mais parte dos planos da jogadora da recém-formada equipe de Campinas, estreante da próxima Superliga. Mas como num conto de fadas, as dores deram um tempo, a oportunidade apareceu e Fernandinha carimbou o passaporte para Londres após ajudar o Brasil a conquistar a medalha de prata no último Grand Prix.
- Eu sempre falo que havia colocado um sonho na gaveta e ele estava dormindo. Achava que jogar na seleção não era para mim, mas felizmente eu estava enganada e ficar entre as doze jogadoras para os Jogos de Londres é uma sensação muito boa - afirmou.
Brasil vence a Turquia (Foto: Divulgação/FIVB)
Assim como a ponteira Natália, que superou duas cirurgias e só foi confirmada no grupo nesta quarta-feira, a caminhada de Fernandinha rumo a Londres também não foi fácil. E começou bem longe do Rio de janeiro. Pouco valorizada em território nacional, a menina que deu suas primeiras levantadas aos oito anos de idade no América-RJ preferiu buscar esse reconhecimento fora do país.
- Essa convocação é um merecimento da luta de uma vida inteira. Não passei esses cinco anos na Itália e no Azerbaijão porque eu simplesmente queria jogar fora. Queria apenas ser valorizada como jogadora, porque aqui estava difícil. Foram cinco anos flonge do Brasil, da minha família e dos meus amigos, mas que valeram a pena - disse, orgulhosa.
Apaixonada por animais e leitora assídua fora das quadras, a levantadora de 32 anos mostrou personalidade ao afirmar, em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM ainda no Centro de Treinamento de Saquarema, antes do embarque para Londres, que não se sente pressionada em substituir a campeã olímpica Fofão. Simpática, mas firme nas respostas, ela não titubeou na hora de apontar os Estados Unidos como favoritos à medalha de ouro e disse ainda que não costuma se importar com as críticas.
Achava que jogar na seleção não era para mim, mas felizmente eu estava enganada e ficar entre as doze jogadoras que irão á Londres é uma sensação muito boa"
Fernandinha
Você esperava uma convocação depois de tanto tempo jogando fora do país?Sinceramente, não. O Zé tentou me convocar antes, mas infelizmente não deu porque eu estava com um problema na coluna. Foi muito difícil dizer não e por isso eu realmente não imaginava ter outra oportunidade. Eu sempre falo que havia colocado um sonho na gaveta e ele estava dormindo. Achava que jogar na seleção não era para mim, mas felizmente eu estava enganada e ficar entre as doze jogadoras para os Jogos de Londres é uma sensação muito boa.
Sua ficha caiu que você estava em Londres quando o Zé Roberto anunciou o corte da Fabíola?Nem sei explicar, porque é tão difícil. Naquele momento ninguém fica feliz, de verdade. Eu não realizei que estava indo para as Olimpíadas, pois estava triste pela Fabíola, que é uma pessoa especial e que eu gosto muito. Eu voltei para casa com meus pais muito triste porque a gente sabe o quanto cada atleta que está aqui sonha em jogar pela seleção e estar nas Olimpíadas. Mas a ficha foi caindo devagarzinho do que estava acontecendo.
O que passou pela sua cabeça naquele momento?Meu caminho foi realmente árduo. Muitas pedras, muito difícil e sempre com muita luta. Essa convocação é um merecimento da luta de uma vida inteira. Não passei esses cinco anos longe do Brasil porque eu simplesmente queria jogar fora. Queria apenas ser valorizada como jogadora, porque aqui estava difícil. Foram cinco anos longe do Brasil, da minha família e dos meus amigos, mas que valeram a pena.
E como foi jogar num país como o Azerbaijão e nunca liga pouco conhecida?A liga no Azerbaijão é muito diferente da italiana porque lá são apenas sete times, sendo cindo deles muito fortes, com as principais jogadoras de várias seleções. É diferente porque cada jogo é uma final, você não pode dar mole. Foi uma experiência muito legal, não só pelo lado esportivo, mas por aprender uma nova cultura.
O que mudou no seu jogo depois de tanto tempo fora do Brasil?Sempre tive uma característica de jogar com bolas rápidas, mas quando fui jogar na Itália tive que aprender a jogar com bolas altas. Consegui convencer algumas companheiras a jogar com bolas rápidas, mas outras não e o jogo acaba ficando mais cadenciado. Quando cheguei aqui eu sofri um pouquinho até retomar minha maneira de jogar e me acostumar novamente com esse jogo mais veloz.
Fernandinha levantadora vôlei seleção (Foto: Alexandre Arruda/CBV)
Muitas pessoas acham que as chances da seleção em Londres diminuem sem a Fofão. Você se sente pressionada por estrear em Olimpíadas tendo que substituir uma das melhores levantadoras de todo os tempos e campeã olímpica?Não. Aqui no Brasil as pessoas têm mania de ficarem lamentando as ausências de quem já passou, no caso da Fernanda Venturini e da Fofão. Eu não acho isso legal, cada geração é uma geração. Essa geração é diferente, pois metade dela não estava nos Jogos de Pequim. Eu acho que temos que valorizar quem está aqui, que é o que temos de melhor no momento. Não adianta ficar nos comparando com quem não está mais aqui. Nós vamos dar o nosso máximo para mostrar que estamos à altura da seleção brasileira.
Como você encara as críticas e a desconfiança por parte de algumas pessoas?Eu procuro não ouvir as coisas que não me acrescentam. Do mesmo jeito que essas coisas batem, elas voltam. Eu procuro tirar proveito das críticas construtivas, mas esse tipo de coisa não vai me ajudar em nada.
Quais são as principais adversárias do Brasil em Londres?Os Estados Unidos são indiscutíveis no momento e a Itália, que apesar de não estar no seu melhor momento, é um time que sempre dá trabalho e que ainda vai crescer muito. A China não vem jogando bem, mas é um time chato, e aTurquia, que é a atual campeã europeia e vive um grande momento.
E não passei esses cinco anos longe do Brasil porque eu simplesmente queria jogar fora. Eu queria apenas ser valorizada como jogadora, porque aqui estava difícil"
Fernandinha
Em quem você se espelhou quando começou a jogar vôlei lá no América aos oito anos?Naquele período não tinha nenhuma jogadora em quem eu me espelhasse. Eu não queria jogar vôlei e lembro que meu pai disse que só continuaria jogando se quisesse. Mas bastou um treino para eu me apaixonar. Meus pais sempre foram atletas. Meu pai jogava futebol de areia e minha mãe vôlei, acho que por isso eles sempre foram meus ídolos. Sempre foram muito guerreiros e desde pequena eu os acompanhei jogando. Mesmo sem serem profissionais, eu percebia o quanto eles amavam aquilo que estavam fazendo.
O que você gosta de fazer quando não está jogando vôlei?
Sou apaixonada por animais, tenho um cachorro e não sei viver sem. Levo para passear e brinco com ele sempre que posso. Gosto de sair para jantar, pois na Itália se come muito bem. Lá eu conheci uma pessoa que sempre me indicava os melhores restaurantes. Também adoro ficar em casa lendo e ir à praia quando estou no Brasil.
O que você pretende fazer quando parar de jogar vôlei?Essa é uma ótima pergunta que infelizmente eu não sei responder. Acho que essa é a grande pergunta que todos os atletas fazem, pois é muito difícil. Isso assusta e dá um frio na barriga muito grande, pois desde que tenho oito anos a minha rotina é essa. Tenho medo da falta que eu vou sentir do ritmo de treinos, dessa coisa louca que é a nossa vida e de não me adaptar ao que eu vou fazer quando parar.
Fernandinha vôlei feminino (Foto: Alexandre Arruda/CBV)
Por falar nessa rotina louca que é a vida de um atleta, você se arrepende por ter perdido sua infância e adolescência por causa do vôlei?Todos os sacrifícios que eu fiz valeram muito a pena. É claro que perdi muitas coisas. As viagens com a galera, os casamentos das minhas amigas, o nascimento de primos, do meu afilhado. Álbuns de família, não estou na maioria das fotos... Tudo que você pode imaginar eu já perdi. Mas se eu já era feliz antes, só pelo fato de estar aqui compensa tudo.
Qual o momento mais marcante e o mais frustrante da sua carreira?O mais marcante foi a conquista da Copa Cev, na Itália, pelo Yamamay, e o mais frustrante foi na última temporada que eu joguei no Brasil, pelo Osasco, quando perdemos a decisão da Superliga para Rio de Janeiro depois de estar vendendo o tie-break por quatro de pontos de diferença. Era uma medalha de ouro que eu já estava sentindo o gostinho, mas que infelizmente não veio
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