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Entrevista com a Fofão se despede do vôlei e aponta americanas como maior perigo na rio-2016




fofão

A levantadora Fofão entrou pela última vez em quadra como atleta profissional. Aos 45 anos, a campeã olímpica pela Seleção Brasileira (2008) será homenageada na partida entre Amigas de Fofão x Seleção de 2008. O duelo festivo foi no Ginásio Milton Feijão, em São Caetano do Sul, e terá lotação máxima. Antes mesmo do fim da semana, os 3.500 ingressos já haviam sido vendidos. Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, a paulistana Hélia Souza faz um balanço da carreira, revela planos sobre o futuro e critica a lentidão na formação de novas levantadoras no país. Ela também dá a receita para conquistar a Superliga e aponta os Estados Unidos como adversário mais perigoso nos jogos olímpicos do ano que vem.
Mesmo aos 45 anos, você conseguiu jogar no mais alto nível do vôlei. A que se deve essa longevidade?
Eu acredito que a vida me condicionou a jogar até esta idade. Não ter tido nenhuma lesão muito séria e ter me cuidado sempre, me alimentando bem e descansando o suficiente. Isso me proporcionou atuar até hoje.
Quando você iniciou a carreira, ainda nos anos 80, esperava jogar até essa idade?
Sempre tive muita consciência de que para ser uma atleta de verdade teria que abrir mão de muita coisa e ter disciplina. Nada foi planejado, mas é uma postura que sempre tive, de me cuidar.
Como você definiria o peso da idade? Com o tempo, sentiu algo de diferente em seu corpo, sua mobilidade e seu condicionamento físico?
A minha idade é incomum, ainda mais numa mulher, praticando o esporte em alto nível. Mas ao mesmo tempo é uma coisa para ser pensada pelas pessoas que passam dos 40 e não sabem se aguentam continuar jogando. Depende muito do atletas. Perder peso hoje é mais difícil do que antigamente, os exercícios de muscu-lação também são mais complicados de se fazer, e a recuperação de um jogo no dia seguinte é mais difícil pra mim do que para as meninas mais novas.
Por outro lado, o que o tempo e a experiência acrescentaram em seu jogo?
A idade me deu tranquilidade. Antigamente, eu fazia algo e ficava com medo. Hoje eu erro e faço de novo, com tranquilidade. Esta bagagem foi adquirida com o tempo. Nesse momento, com a minha idade, a experiência foi fundamental. Eu soube administrar os treinos e as outras tarefas.
Agora aposentada, quais são os planos? Você quer continuar trabalhando com vôlei ou tem algum projeto diferente?
Gosto muito do vôlei. Algumas coisas me atra-em muito no esporte, mas eu tenho que pensar bastante naquilo que eu farei. Existem alguns projetos (ligados ao vôlei) que espero colocar em prática. Parei, mas quero continuar envolvida. Uma coisa que eu quero muito é ter um projeto de formação de levantadoras. Sinto muita vontade disso. É uma oportunidade de outras pessoas verem de perto e trabalharem junto comigo. Não existe ainda este projeto individualizado no país. Aprendi muita coisa dentro de quadra, mas agora é hora de aprender outras fora – como parte administrativa, fazendo cursos.
Em um balanço da sua carreira, diria que faltou alguma coisa? O quê?
Acho que com esta idade não faltou nada, só sobrou (risos). Estou muito feliz porque nunca, nem nas derrotas, me faltou nada. Muita coisa aconteceu e vai ficar guardado pra sempre.
Qual considera a sua maior conquista?
Sem dúvidas foi a Olimpíada de 2008. Foi a mais importante e a que marcou a minha história. Aquela medalha de ouro resume a minha vida e tudo que passei até hoje.
Teve algum momento triste ou dramático na trajetória?
Eu vejo o Pan em 2007 no Brasil, quando perdemos. Foi uma derrota que, pelo sofrimento e por estar jogando em casa, foi doída, mas foi quando olhei para o pódio e jurei que era a última vez que a gente não ficaria em primeiro lugar. Depois disso, conquistamos os jogos em Pequim.
Você conviveu com várias gerações de atletas consagradas, como Isabel, Ana Moser, Marcia Fu, Fernanda Venturini, entre outras. Hoje, temos jogadoras de alto nível, como Sheilla, Fabiana e Jaqueline, todas na casa dos 30 anos. Você vê um trabalho de base que garanta novas gerações de campeãs?
Eu vejo muitas pessoas investindo na base, com trabalhos interessantes. Talvez não seja na quantidade necessária. A preocupação é que o interesse das meninas pelo vôlei, quando ficam adultas, acaba. Temos que entender este fato para que haja uma renovação. Um dia todo mundo vai parar, então outras jogadores precisam estar prontas.
Como você vê essa polarização do vôlei nacional, entre Osasco e Rio? O que pode ser feito para equilibrar a disputa com as outras equipes?
Eu vejo isso como um fato normal. São as duas equipes que mais investem e com patrocinadores há mais tempo. Várias equipes têm jogadoras de seleção e não é isso que pesa na quadra. A continuidade que é o principal fator. Os outros são muito inconstantes. Montam times fortes e nos outros anos desandam. Para ser campeão da Superliga é importante um entrosamento de dois ou três anos. Estas duas equipes fazem isso e sabem o caminho. Já estive fora desta disputa e a gente quer vencer estas equipes. Mas a gente sabe que nas horas importantes, elas estão mais preparadas. No Rexona, a equipe já visa estar na final. A mentalidade de trabalho é diferente de outras que se contentam em ficar entre os quatro. Isso vai muito do que o treinador e o clube querem para sua equipe. Este pensamento pode atrapalhar.
Você jogou quatro anos pelo Minas. Desde a sua saída, o time não conseguiu mais ganhar a Superliga. Por que você acha que um clube com a tradição do Minas está há tanto tempo longe dos títulos?
Eu acho que o Minas tem uma coisa que poucas equipes têm, que é o material humano. Eles trabalham a base, mas acabam não aproveitando estes jovens. Acho que teriam que investir nestes jogadores e procurar manter uma sequência. É um clube de tradição que tem a força dentro da própria casa.
Você sofreu ao ficar até um ano sem jogar por conta do ranking da CBV. Agora, como você analisa esse formato que é feito para "equilibrar" a montagem das equipes?
Eu sou a favor do ranking porque já vivi sem ele e sei o quanto é difícil uma equipe apenas ter dinheiro e ganhar tudo. Só acho que deve ser pensado com a quantidade de equipes que têm no campeonato. Ele é feito no ano anterior e alguns clubes costumam desistir da disputa. Com isso, jogadoras acabam ficando desempregadas. Já aconteceu comigo. É sempre uma incerteza muito grande. Ele é bom pelo lado do equilíbrio, mas deve pela questão do desemprego.
Após você e a Fernanda Venturini, o Brasil não teve ainda uma grande levantadora que assumisse a titularidade da seleção de forma inquestionável. Quem você acha que deve fazer esse papel e por quê?
A gente ficou muito tempo como titulares e ninguém nunca foi preparado para nos substituir. Várias passaram, mas nenhuma se firmou. A renovação é lenta. Se tivesse outra, com certeza o Brasil não estaria neste momento instável. Acho que a Dani Lins está se firmando agora e, hoje, ela ainda está um patamar acima, e é a levantadora que tem mais condições de comandar a seleção.
Você trabalhou muitos anos com o Zé Roberto e com o Bernardinho. Quais as semelhanças e diferenças entre os dois? Para você, quem é melhor?
Não é questão de ficar em cima do muro, gosto muito dos dois. Tudo que eu sei sobre ser levantadora, eu aprendi com o Zé Roberto. O Bernardinho me lapidou, me encorajou e sempre quis que eu atingisse a perfeição. Eles têm características diferentes. O Zé é mais tranquilo e observador. O Bernardo tem aquele jeitão explosivo, querendo sempre o 120 (km) das jogadoras. Mas são dois vencedores.
Qual seu prognóstico para a seleção feminina na Olimpíada? Os Estados Unidos são o time a ser batido?
Eu acho que o Brasil tem que se cuidar com todo mundo, pois o bicampeão olímpico é muito estudado. Mas os EUA me preocupam muito, porque nos estuda muito desde 2008, quando perderam em Pequim. Estão engasgados e é um time que temos que ter muita atenção. O Brasil sempre tem dificuldades para enfrentá-las e nesta olimpíada vão querer fazer a festa na nossa casa.
Se o Zé Roberto fizesse um apelo e te chamasse para a Rio-2016, você toparia? Alguém chegou a te propor isso?
Eu já consegui convencê-lo de desistir de tentar me convocar. Por mais que seja no Brasil, eu não tenho mais motivação. Meu ciclo na seleção se encerrou e quando a gente toma uma decisão assim, é de caso pensado e não traz arrependimento.

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