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Queda de investimentos põe o futuro do vôlei em xeque e leva CBV a agir






O investimento em esportes se fortaleceu com o anúncio dos megaeventos no Brasil. A Copa do Mundo e a Olimpíada, no entanto, já passaram, e o apoio financeiro vai embora a cada ano. Antes e durante a Rio-2016, muito se falou sobre o legado olímpico. Agora, o que vemos não é o esperado. A queda de investimentos chega a esportes de alto rendimento, como o vôlei, que já acumula resultados pouco satisfatórios tanto no profissional quanto nas divisões de base.

A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) tem planejado diversas ações para amenizar o impacto do problema. Diretor executivo da entidade, Radamés Lattari apontou diversos fatores para as dificuldades, como o corte significativo de gastos após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

- O investimento caiu bastante. Com isso, temos que tentar da melhor maneira possível aproveitar os recursos para manter a mesma condição de treinamento e resultados. E não é fácil. A crise do esporte brasileiro vai criar muitas dificuldades e nós ainda temos que agradecer, pois temos excelentes patrocinadores e temos como nos manter - contou o dirigente, ao LANCE!.

As categorias de base são a principal preocupação. Peças de reposição para a equipe principal vêm mostrando desenvolvimento abaixo do esperado nas competições. Em 2017, por exemplo, o melhor resultado ficou com a Seleção masculina sub-21, que terminou o Mundial da Republica Tcheca na quarta colocação. Em sequência, vem o resultado do sub-20 feminino, que ficou em quinto no Mundial do México. Neste ano, no Sul-Americano feminino, a Seleção sub-18 quase ficou sem a vaga para o Mundial em 2019. A classificação aconteceu sobre a Colômbia, por 3 a 0, garantindo a medalha de bronze.
Falta de investimento tem feito Brasil a perder a hegemonia no esporte (Foto: Divulgação/FIVB)
Daniel Bortoletto, do Blog Saque, do LANCE!, fez uma crítica ao que vem acontecendo com as categorias de base do vôlei brasileiro nos dois naipes. Para o blogueiro e colunista, a diminuição nas conquistas mostra que houve não só uma queda no rendimento, mas, também, no nível dos atletas:

"Há anos eu ouço de atletas e treinadores a preocupação com as novas gerações. Elas não possuem o mesmo nível das anteriores, em quantidade e qualidade. Nos Campeonatos Mundiais, o Brasil deixou de ser hegemônico. Em algumas categorias, até a hegemonia sul-americana foi perdida para a Argentina. Alguns vão dizer que na base o importante não é conquistar títulos, mas sim revelar atletas. Posso até concordar em parte com a tese, mas a prática mostra que as conquistas diminuíram na proporção da queda do nível da revelação de atletas", escreve em seu blog.
Em sua publicação, Bortoletto destacou algo que também foi mencionado pelo dirigente da CBV: as outras seleções estão cada vez mais qualificadas. Radamés falou um pouco sobre a ascensão das outras equipes, que vem gerando ao brasileiro a perda da hegemonia:

- Todos os adversários passaram a copiar o nosso modelo. O Brasil era um país que dava muita atenção à base, enquanto os adversários não. Então, houve o crescimento dessas equipes, que passaram a treinar mais, a criar seleções permanentes e jogando como se fossem clubes em campeonatos nacionais. Isso, dentro da nossa realidade, é um pouco difícil - explicou, antes de falar das soluções pensadas pela CBV:

- Então, quais foram as nossas providências: passamos a fazer com que nossas equipes de clubes jogassem mais, com os campeonatos brasileiros interclubes. Baixamos a idade dos nossos campeonatos brasileiros de seleções estaduais. Passamos a fazer em janeiro e fevereiro uma peneira com jogadores de menor idade, para começarem a ser acompanhados mais cedo pelas nossas comissões técnicas - contou Radamés, que ainda anunciou uma novidade.

- Em breve, teremos uma novidade no site da CBV para que jogadores e treinadores possam enviar vídeos de atletas de todo o país para serem observados pela nossa comissão técnica. O Brasil, diferentemente da maioria dos seus adversários, tem dimensões continentais e ter em todo território nacional as mesmas condições é difícil. Aos pouquinhos, a gente está tentando mudar essa situação para voltar a crescer nas divisões de base.

DIMINUIÇÃO DRÁSTICA NA RECEITA DE PATROCÍNIO

Radamés citou o fato de ter um bom patrocínio como motivo para agradecimento por parte da CBV. No entanto, em 2017 a confederação recebeu a notícia da diminuição em R$16 milhões anuais em seu contrato com o Banco do Brasil, patrocinador oficial desde 1991. O novo valor de investimento do banco estatal para o vôlei brasileiro prevê pagamento de R$ 218 milhões em quatro anos, no ciclo olímpico 2017-2020. O contrato anterior, no período de 2013-2016, rendeu cerca de R$ 276,4 milhões.

No balanço realizado em 2017, as diferenças nas contas mostram que os valores de receitas extraordinárias - as que vêm de patrocínios, convênios e direitos de transmissão - diminuíram 39,12% em relação ao ano anterior. Ao todo, em 2016, o vôlei brasileiro recebeu R$ 116.981.108, enquanto em 2017, o valor diminuiu para R$ 71.228.509. Dos valores apresentados pelo balanço, os investimentos no vôlei de praia e quadra diminuíram em 36,3%, indo de R$ 65.685.772 para R$ 41.803.848. Já nos valores de jogos e eventos, a diminuição foi de 7,7%, passando de R$13.656.176 para R$ 12.591.116.
CORTES DE GASTOS E APERTO PARA TÓQUIO-2020
A diminuição nos gastos com esportes veio atrelada a uma crise econômica no país, que pode ter ligação com o corte nos investimentos, após o Rio de Janeiro sediar a Olimpíada em 2016. A atitude de retirar o apoio financeiro, no entanto, é diferente da postura tomada pela Grã-Bretanha, após Londres sediar os Jogos Olímpicos de 2012. O país investiu para a Rio-2016 um valor 10% acima do que havia sido gasto no ciclo anterior. Para Radamés Lattari, o corte nos gastos é perigoso para o esporte olímpico:

- Como um amante do esporte faço um apelo as nossas autoridades: Fiquem de olho vivo. Acredito que o esporte brasileiro e principalmente os esportes olímpicos vão ter muita dificuldade para chegar em Tóquio.

A delegação da Grã-Bretanha teve um resultado mais vitorioso nos Jogos do Rio do que quando disputou em casa. Apesar de ter sido em apenas duas medalhas, o desempenho foi histórico. Os britânicos além de se tornarem o primeiro país-sede de uma Olimpíada a conquistar mais medalhas na edição seguinte, também foram contra um histórico de piorar o desempenho.

O plano britânico, no entanto, não é perfeito. Os investimentos foram feitos, mas esportes periféricos, ou menos vitoriosos, acabaram deixados de lado. Em matéria publicada pela "BBC" em 2016, ao fim do ciclo olímpico, o pesquisador alemão Danyel Reiche falou sobre uma das atitudes mais comuns no investimento esportivo, que é a de aplicar dinheiro nos esportes de maior rendimento, em detrimento de outros, sem preocupar-se realmente com a base e o incentivo à prática esportiva pela população:

- Existe uma tendência dos países de enfatizar apenas esportes que possam render medalhas, incluindo nações que investem ainda mais especificamente, como no caso da Jamaica (todas as 11 medalhas do país na Rio-2016 vieram do atletismo, incluindo os três ouros de Usain Bolt). O problema é que medalhas não refletem a popularidade de esportes. O mais importante em tudo isso é que a população pratique esportes - declarou.
O dirigente da CBV falou também sobre a importância do esporte para as crianças. O investimento nas categorias de base vai além dos resultados e da revelação de grandes atletas. Envolve o social e o educacional dos jovens. Para Radamés, falta às autoridades o entendimento sobre a importância do esporte para a população.

- O pessoal não entende que cada vez que trazemos as crianças para o esporte, além de dar uma condição de saúde melhor para essas crianças, nós estamos ajudando na educação. O esporte é uma ótima maneira de socializar a criança e fazer com que ela saiba lidar com o adversário, entender que não são inimigos. Como pode lutar e ter determinação para atingir os objetivos. Os esportes coletivos ensinam como dividir com os companheiros. Enfim, nossas autoridades não entendem a importância do esporte - completou.

Além disso, o dirigente listou dois fatores importantes sobre a desvalorização do esporte por parte das autoridades brasileiras:

- É um país que não tem uma política esportiva. Essa é a primeira causa do estado crítico que se encontra o nosso esporte olímpico. Segundo, é que hoje todas as confederações precisam muito e estão contando com a excelente ajuda do Comitê Olímpico do Brasil. Eu acho que se o COB não estivesse contribuindo tanto com as nossas confederações, muitas já teriam fechado as portas. Os candidatos que não pensam jamais nos esportes não entendem que ao fazer investimento no setor, vai estar investindo também em saúde e educação. Existem pesquisas que mostram que a cada dólar investido no esporte se economiza cerca de seis na saúde - apontou Radamés.

A principal contribuição do governo federal para os esportes é através da Lei Agnelo-Piva, que destina 2,7% dos valores arrecadados nas loterias federais. O montante total é repassado para o COB, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC). Este ano, CBV será uma das confederações mais beneficiadas pelos recursos. O valor de repasse em 2016 foi de R$ 4.497.404. No ano seguinte, caiu para R$ 4.154.136. Em 2018, será de R$ 6,26 milhões.

VETO DA MEDIDA PROVISÓRIA 841
Há pouco mais de dois meses, o esporte levou um baque chamado Medida Provisória 841. A MP previa a retirada de parte do dinheiro da loteria federal destinado ao esporte para o Fundo Nacional de Segurança Pública. A medida foi assinada pelo presidente Michel Temer, mas após muita pressão de atletas, clubes, federações, confederações e organizações não governamentais o político voltou atrás na decisão.

Para Lattari, a união dos esportes em prol de melhorias e investimentos foi um passo importante para a luta da valorização dos esportes olímpicos no país:

- Eu fico feliz que, depois de inúmeros anos, esta foi a primeira vez que o esporte se uniu e se revoltou contra uma medida que seria adotada e saímos vitoriosos. A gente sempre diz que a cultura se une para defender seus interesses, enquanto o esporte nunca tinha se defendido. Espero que essa união seja a primeira das diversas lutas que nós temos que travar em conjunto para que a gente possa fazer com que o esporte sobreviva no país. Eu não sei se a curto prazo vamos conseguir [novos investimentos], mas acho que à medida que todos ficarem unidos em busca do mesmo objetivo, a nossa luta vai ficar menos difícil. Hoje, é impossível - finalizou o diretor.

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